SENADO - 28 de Agosto
O perfil de quem quer o seu voto em 2026
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recebeu cerca de 20.500 registros de candidaturas para todos os cinco cargos em disputa nas eleições de 2026 (além de vices e suplentes). Esse número representa uma queda expressiva no número de participantes, com 8,7 mil registros a menos do que nas eleições de 2022. Essa diminuição revela barreiras importantes à participação eleitoral diante dos holofotes, mas também esconde uma variedade de perfis que, apesar de manterem o padrão tradicional da maioria dos candidatos, trazem novidades em termos de identidade pessoal e política para a urna eletrônica.
O levantamento das candidaturas de 2026 confirma a presença dominante do perfil tradicional da política brasileira. O candidato típico é homem (65%), branco (48,7%), casado (50%) e com ensino superior completo (58,5%). A grande diferença de escolaridade entre quem governa e quem vota é um dos dados que mais chamam a atenção. Entre os eleitores, apenas 17% passaram por um curso universitário, e um terço destes não conseguiu concluir. Já entre os candidatos, 69% chegaram à universidade e 85% destes têm o ensino superior completo. Os candidatos diplomados chegam a quase 60% do total; os eleitores, menos de 12%.
Em relação à idade, a política de 2026 é formada por pessoas mais maduras. A faixa etária da maioria dos candidatos fica, principalmente, entre 45 e 54 anos. Esse dado se alinha com um eleitorado que também está envelhecendo: o grupo de eleitores idosos (com 60 anos ou mais) já ultrapassou o de eleitores jovens (com até 30 anos), e hoje representam 23,6% dos votantes, quase um em cada quatro. O número de eleitores com menos de 30 anos, por sua vez, está em 21,55%.
Os números de candidaturas apresentados aqui são os registradas no TSE até o fechamento da edição. Eles podem sofrer mudanças pontuais até o dia 14 de setembro, mas sem maiores impactos sobre o quadro geral.
Mais de 20.500 cidadãos brasileiros lançaram seus nomes na disputa eleitoral de 2026 Edilson Rodrigues/Agência Senado e Marcelo Camargo/Agência Brasil
O cientista político Celso Fernandes, da Associação Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP), explica que a redução no total de candidaturas não é um acidente: o sistema político trabalhou por esse resultado.
— Isso não pode ser interpretado automaticamente como desinteresse ou afastamento do cidadão da política, mas merece uma reflexão mais aprofundada a respeito das consequências das mudanças na competição eleitoral ao longo dos últimos anos. Apesar de tudo isso, o candidato típico continua sendo homem, adulto, casado e com ensino superior.
Fernandes cita algumas medidas que têm responsabilidade direta sobre a redução de pedidos de registro de candidaturas:
Limitação do número de registros por partido, no caso das eleições para deputados federais, estaduais e distritais: no máximo uma a mais do que o número de vagas a preencher na disputa
Em vigor desde 2021 (Lei 14.211)
Instituição da cláusula de barreira: os partidos precisam eleger um número mínimo de deputados federais ou obter um número mínimo de votos válidos na eleição para a Câmara dos Deputados para manterem o direito de receber verbas do fundo partidário
Em vigor desde 2017 (Emenda Constitucional 97)
Criação das federações partidárias: os partidos que se organizam em federações passam a funcionar como uma legenda única durante o período em que durar a aliança (mínimo de quatro anos)
Em vigor desde 2021 (Lei 14.208)
“
Temos uma representação política relativamente madura diante de um eleitorado que também está envelhecendo. Ao mesmo tempo, esse eleitorado passa por outras transformações importantes, como o aumento da escolarização. O quadro geral é paradoxal: a sociedade brasileira está ficando mais diversa e mais escolarizada, e as candidaturas acompanham parcialmente essa transformação, mas continuam existindo barreiras de acesso à representação política.
Celso Fernandes
Cientista político
Fernandes observa que, apesar das permanências estruturais, o perfil dos candidatos brasileiros já sinaliza leve diversificação, em linha com as transformações populacionais. No entanto, as eleições têm mostrado que o perfil dos candidatos que são efetivamente eleitos continua, em essência, cristalizado. Esse permanece sendo o principal obstáculo para a quebra de padrões na política brasileira.
— O sucesso eleitoral e a presença nos espaços de poder no Brasil ainda pertencem ao homem branco. A elite eleitoral continua sendo significativamente mais escolarizada do que o conjunto da população — conclui.
Para o sociólogo Hector Vieira, professor do Ibmec Brasília, o crescimento da presença de pessoas pretas e pardas nos registros precisa ser analisado também a partir dos critérios utilizados pelos partidos para definir quais candidaturas terão visibilidade e serão consideradas prioritárias.
Um deles é o financiamento. Em 2020, o TSE decidiu que os recursos do Fundo Eleitoral deveriam ser divididos, pelos partidos, de foram proporcional à distribuição de identificação racial entre seus candidatos. A regra produziu efeitos, mas não transformou o cenário. Vieira aponta que, em 2018, homens brancos eram 5,1% dos candidatos a deputado federal e receberam 32,4% da verba de campanha — mais de seis vezes seu peso numérico. Em 2022, já sob a regra de cota fixada pelo TSE, homens brancos ainda eram 3,3% dos candidatos e concentravam 17,8% dos recursos, cinco vezes acima de sua proporção
— Crescer no registro não é o mesmo que crescer na competitividade. Os números escondem o que acontece depois, no financiamento e na viabilização real dessas campanhas. O segundo [critério] é a hierarquização racial dos cargos dentro do pacote de candidaturas que cada partido lança. Há mais pessoas brancas lançadas para os cargos majoritários, executivos, de maior prestígio e visibilidade.
Presidência da República, Senado e Câmara: perfil dos eleitos para os cargos em disputa ainda não tem mudanças significativas Pedro França/Agência Senado, Andressa Anholete/Agência Senado e Beto Barata/Agência Senado
A origem profissional dos candidatos é um dos pontos mais variados do levantamento de 2026. Não há uma carreira ou formação dominante entre os concorrentes nas urnas. Os números apontam que a política brasileira é formada principalmente por empresários (12,5%) e advogados (8,2%). Os números, porém, são turvos, porque o candidato só pode assinalar uma opção. Assim, muitos que de fato exercem uma profissão podem não ser contados nas fileiras dela, uma vez que optaram por se identificar com outra atividade que também praticam.
Além disso, quando o candidato já é um político com mandato, ele tem a opção de declarar esse cargo como sua profissão. De fato, 8,2% dos candidatos atuais se apresenta profissionalmente como deputado (4,3%) ou vereador (3,9%).
No entanto, os registros revelam uma grande diversidade de ocupações. Entre os postulantes, há manicures, maquiadores, garis, salva-vidas, motoboys, pescadores, eletricistas, agricultores familiares, técnicos de enfermagem e influenciadores digitais, entre muitas outras atividades com as quais a população em geral pode se identificar.
A concorrência para 2026 não acontece de forma igual em todo o país. O cargo de deputado distrital no DF é o mais disputado do Brasil, com uma média de 17,5 candidatos por vaga. Para a Câmara dos Deputados, a média nacional é de 14,87 candidatos por vaga.
Já o Senado tem 5,8 concorrentes para cada uma das 54 cadeiras em disputa. Dos senadores com mandato chegando ao fim, 32 — quase 60% — vão tentar a reeleição. Cada estado elegerá dois senadores, então cada eleitor poderá votar em dois candidatos diferentes para o cargo.
Embora a maioria branca e masculina continue predominando, a autodeclaração de raça e gênero revela um Brasil mais diversificado e cada vez mais disposto a se apresentar como tal. A soma dos candidatos que se declaram pardos (36,2%) e pretos (13,6%) chega a 49,9% do total, mostrando um equilíbrio em relação aos 48,7% de candidatos brancos. Por outro lado, as candidaturas indígenas somam apenas 0,93% (191 registros) e as de pessoas amarelas, 0,52% (107 registros).
No campo da identidade de gênero e orientação sexual, a Justiça Eleitoral registrou um marco importante. Essa identificação é opcional tanto para eleitores quanto para candidatos, e começou a ser coletada nas eleições municipais de 2024. Naquela ocasião, 35% dos candidatos quis responder sobre identidade de gênero, e 32% sobre orientação sexual. Nesta eleição, mais da metade dos candidatos o fez: 58% e 51%, respectivamente.
A representatividade de pessoas transgêneras e LGBTQIAPN+ ainda é baixíssima, dentro desse recorte: mais de 99% dos declarantes se identificam como cisgêneros e mais de 98%, como heterossexuais. Porém, o aumento da participação pode indicar que a linguagem da diversidade, pelo menos, está se tornando mais natural. Também é possível se inscrever com o nome social, opção que existe desde 2018 e que 53 candidatos fizeram.
Para Carmela Zigoni, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a inclusão dessas informações nos registros eleitorais também representa um avanço na visibilidade de grupos historicamente sub-representados nos espaços de poder.
— Quando o Estado passa a registrar esses dados, as minorias sociais conseguem maior visibilidade e passam a ter mais informações para traçar estratégias para disputar os espaços de poder. Paralelamente, eleitoras e eleitores também conseguem ter mais informações sobre as candidaturas para a escolha do voto. A visibilidade contribui para superar a exclusão política, mas a equidade e a inclusão só serão efetivas se os partidos políticos de fato investirem nessas candidaturas. Para isso, legislações novas de garantia de participação, capazes de contribuir para a superação desse passivo histórico, também são importantes — avalia.
Manifestações de coletivos negros, femininos, LGBTQIA+ e indígenas: mais visibilidade nas estatísticas significa mais abertura para os espaços de poder Paulo Pinto/Agência Brasil, Fernando Frazão/Agência Brasil, Tomaz Silva/Agência Brasil e Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Norte
É a região com o eleitorado mais jovem do país: 49% dos eleitores têm menos de 40 anos, e 28% têm menos de 30. No entanto, isso não se reflete entre o perfil dos candidatos, que seguem a tendência nacional de se distribuir principalmente em torno da faixa etária dos 50 anos. Também é a região com o eleitorado mais equilibrado entre homens e mulheres — 51% a 49% para elas — mas isso não se repete entre os candidatos, que também acompanham os números país afora, com 64% de homens concorrendo.
Sede do governo do Amazonas e Plenário da Assembleia Legislativa do Pará Divulgação/Gov. Amazonas e Celso Lobo/Alepa
Nordeste
No Nordeste, a peculiaridade é que a região tem a maior proporção de candidatos que optaram por declarar a sua identidade de gênero e a sua orientação sexual. Essas declarações não são obrigatórias, mas são sempre mais prevalentes entre candidatos do que entre eleitores: enquanto apenas 20,6% dos eleitores declararam a identidade de gênero, quase 58% dos candidatos o fizeram. No Nordeste, foram mais de 61%, além de 59,5% que declararam a orientação sexual (contra 55% na média nacional).
Sede do governo de Pernambuco e Plenário da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte Roberto Albuquerque/Flickr e Divulgação/ALRN
Sudeste
A região que abriga o maior eleitorado do país — quase 42% — tem também a maior fatia das candidaturas — pouco mais de 34%. É a região com maior desnível de gênero entre as candidaturas, apresentando 66% de candidatos homens, e também com a maior proporção de candidatos que se declaram pretos (16%). Também chama atenção o grau de instrução das candidaturas: a região tem a menor proporção de candidatos que cursaram, total ou parcialmente, o ensino superior (67,5%).
Sede do governo de São Paulo e Plenário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais Divulgação/Gov. São Paulo e Alexandre Netto/ALMG
Sul
O Sul é a região com o eleitorado proporcionalmente mais idoso do país, mas mesmo assim apresenta uma quantidade significativa de candidatos jovens: 11,5% das suas candidaturas são de pessoas com menos de 35 anos, o que representa a maior proporção entre as regiões brasileiras. Há também uma sobrerrepresentação de candidatos que passaram pelo ensino superior: 74,3% cursaram a universidade, comparado a 21% dos eleitores. A diferença entre candidatos e eleitores com esse perfil é a mais descolada do país.
Sede do governo do Rio Grande do Sul e Plenário da Assembleia Legislativa do Paraná zigres/Adobe Stock e Valdir Amaral/Alep
Centro-Oeste
É a região onde se constata a maior discrepância entre os perfis étnicos do eleitorado e do conjunto de candidatos. Enquanto 56,6% dos eleitores do Centro-Oeste se identificam como pardos, apenas 36,8% dos candidatos fazem o mesmo. Enquanto isso, 50,1% dos candidatos são brancos, contra 31,4% do eleitorado. O Centro-Oeste, portanto, é a única região do país onde a classificação racial predominante entre os eleitores não se repete entre os candidatos. Já a população preta está levemente mais representada entre os candidatos do que entre os eleitores — 10,9% contra 9,7%.
Sede do governo de Goiás e Plenário da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul Leandro Moura/MTur e Wagner Guimarães/ALEMS
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Reportagem: Maria Fernanda Oliveira (sob supervisão)
Edição: Guilherme Oliveira
Pesquisa e edição de fotos: Ana Volpe
Edição de imagens e multimídia: Bernardo Ururahy
Infografia: Cássio Costa e Diego Jimenez
Ilustração de capa: Cássio Costa
Fonte: Agência Senado
Por: Senado Federal